Fazendo uma hq: um pequeno passeio pelos bosques da criação

Como se faz uma hq?

Bem, depende.

Embora exista uma bibliografia especializada que apresenta métodos para a criação de uma história em quadrinhos (seja focando apenas no roteiro ou em todo o processo – roteiro, arte, diagramação, etc.), o passo-a-passo para fazer uma hq vai depender de quem a está produzindo.

Isso também varia de acordo com a quantidade de pessoas envolvidas – isto é, se a hq é feita por apenas um artista ou se há outras pessoas envolvidas.

Eu, por exemplo, mudo a forma de como planejar uma hq de acordo com o processo de produção da mesma. Explico: se eu mesmo for desenhar a minha história, não preciso fazer aquele roteiro básico que apresenta o texto dividido em descrição dos requadros (ambientação, ação dos personagens, onomatopeias, etc) e os diálogos: faço um esboço à lápis em papel A4 já com as ideias para as páginas e os textos e a partir daí vou ajustando até chegar ao que idealizei para a narrativa.

Se, por outro lado, vou enviar minha história para outro desenhista, faço o dever de casa mandando o roteiro padrão e algumas sugestões de narrativa visual – algumas eu indico que não devem ser alteradas e outras eu deixo livre para o desenhista.

E isso também varia de desenhista para desenhista: com o meu amigo Romo, por exemplo, geralmente faço o roteiro já quadrinizado, bem rascunhado, mas com indicações de texto, posicionamento dos balões e dos personagens, mas deixo totalmente aberto para que ele narre visualmente a historia como achar melhor – nesse caso, a confiança mútua é imprescindível!

TÁ, MAS… E NA PRÁTICA?

Para exemplificar um desses processos eu decidi mostrar a produção de uma hq que fiz para a revista Cruz Credo, do meu amigo Adriano dos Anjos.

Adriano é um operário dos quadrinhos, um foco de resistência do quadrinho independente brasileiro, sempre produzindo suas revistas e generosamente abrindo espaço para os amigos quadrinistas. Atualmente, ele edita a Cruz Credo, que é uma revista focada nos gêneros terror e suspense.

Então, para a edição de julho tive a honra de ser convidado para fazer a capa e publicar mais uma hq. A questão é que a capa deveria ter relação com a hq que seria publicada.

Ora, estávamos em abril e eu teria que mandar a capa para que ela fosse divulgada na edição de maio. Só que em abril eu ainda não tinha ideia da hq que enviaria para a edição de julho.

Aí entrou em cena o “método-desesperado-de-criar-uma-hq”, que é muito caótico mas que às vezes funciona: crio uma imagem, um título e depois penso detalhadamente como a historia vai acontecer. Quando é para mim mesmo, esse método é tranquilo; mas quando é para terceiros e com prazo, é desesperador.

Bem, tive a ideia para a capa, executei e enviei. Dei um título para a hq que ainda não existia: “Invasores”.

Aí veio a jornada para desenvolver a história. Os elementos disponíveis: Uma mulher assustada. Tentáculos pendendo do teto. O título “Invasores”.

Bem, invasores? Alienígenas, certo? Óbvio. Mas, e se fossem invasores de uma dimensão demoníaca? Ou: e se esses tentáculos existissem apenas na cabeça dela? Uma hq psicológica, então? Que tal uma citação a H. P. Lovecraft? Cthulhu?

Penei por semanas. O prazo ia apertando. Caraca, no que fui me meter?

Foi aí que revi o filme “A Chegada”, de Dennis Villeneuve, adaptação do conto de Ted Chiang. Filmaço, assim como o conto no qual foi baseado

Decidi que seriam alienígenas. “Roubei” o visual dos alienígenas do conto e fiz umas alterações básicas e de repente eu tinha uma história (que não tem nada haver com a história do filme/conto). Daí foi partir para a parte prática.

Bem, já enchi vocês com muita conversa. Vamos ver algumas páginas, desde o esboço, passando pelo lápis, arte-final e o resultado já editado com a inserção dos textos.

ESTUDO DOS ALIENÍGENAS

Aqui, fiz algumas alterações no design original dos aliens: no conto eles possuem sete tentáculos, um orifício no alto do corpo, uma boca no fundo (entre os tentáculos) e olhos circundando todo o corpo. Mantive quase todo o design original, mudando apenas a quantidade de tentáculos para quatro. Também pensei na arma que eles utilizariam e cheguei a esse modelo, onde os três dedos se encaixariam anatomicamente em três orifícios do artefato.

O ESBOÇO DA PÁGINA 1

Estudo para a página inicial

Essa foi a primeira ideia para a página inicial. Fui refinando e cheguei à ideia final, que mudou um pouco.

O LÁPIS DA PÁGINA 1

Ok, sorry! Esqueci de registrar o lápis…

A ARTE-FINAL DA PÁGINA 1

Aqui a arte-final da página inicial. Usei canetas nanquim descartáveis Unipin 0,2 e 0,4; caneta Faber Castell 0,4 e 1,0. Ajustei a resolução no Krita.

PÁGINA 1 COM O TÍTULO E OS TEXTOS

Página inicial com o título, autoria e os quadros com os textos.

O ESBOÇO DA PÁGINA 2

o resultado final mudou pouco – troquei apenas a imagem do segundo requadro.

O LÁPIS DA PÁGINA 2

Lápis final, antes do acabamento e de passar o nanquim.

A ARTE-FINAL DA PÁGINA 2

PÁGINA 2 COM O TÍTULO E OS TEXTOS

O resultado final, já com os textos e um leve acabamento digital na resolução.

Claro que esse processo pode ser feito de outras maneiras. A arte-final pode ser digital, por exemplo. Já experimentei, é rápido e mais limpo, mas vi que gosto mesmo de cobrir o lápis com o nanquim.

O resultado final, em termos de narrativa visual e do próprio desenho, não me agradou muito pelo fato de ter sido feito muito rapidamente por conta do prazo. Digamos que em uma escala de 0 a 10, fiquei no 7.

Mas gostei mesmo foi da história. Tenho facilidade para produzir hqs curtas e todas que fiz para a Cruz Credo ficaram com 4 páginas. Desafiador, mas muito gratificante.

É isso! Espero que tenham gostado dessa pequena amostra!

Qualquer dúvida, falem aí nos comentários ou em nossas redes sociais!!!

Abraços quadrinísticos!!!

Bruno Alves